Crônica: Yamada Sensei 20 anos

Tentarei fazer essa crônica sem ser nostálgico ou pelo menos o menos nostálgico possível, afinal nesses 20 anos foram pouquíssimas vezes em que não participei de um Seminário de Yamada Shihan aqui no Brasil, para falar a verdade, não estive presente  no primeiro e em mais algum no meio dessa jornada.

Vai começar Yamada Shihan

Dias 26, 27 e 28 de novembro em Piracicada foi realizado o Seminário que comemorou a chegada de Yamada Shihan aqui em terras tupiniquins. Para comemorar essa dada mais que especial tivemos um Seminário co-dirigido entre Yamada Shihan e Donovan Shihan (outro icone em nossa terra). E inegável que nesses 20 anos tivemos uma grande evolução no Aikido Brasileiro e em especial por aqueles ligados diretamente a Yamada Shihan. Como o próprio Yamada Shihan comentou ao final do Seminário, muitas coisas aconteceram, muitas coisas boas e outras nem tanto, porém vamos ficar somente nas boas, assim como Yamada Shihan também se manteve. E indescritível poder participar de um evento onde pude reencontrar amigos que conheci ainda faixa branca Clauber, (Clauber Klein, essa história fica para outra vez) e Tharso que hoje estão ai fazendo ukemis para dois grandes Shihans, é isso mesmo, ver essa evolução em nossos amigos é muito gratificante, e não falo somente porque vi  e sim porque treinei e pude sentir na prática a técnica de ambos. Também ha os praticantes que a gente espera muito tempo para treinar, que é o caso do amigo Sergio Coronel, acreditem, nesses 20 anos de Seminário de Yamada Sensei foi o primeiro seminário em que consegui treinar com ele. Temos também a nova geração de praticantes como o Cadu, que mesmo com o ombro ruim estava lá treinando firme e forte. E como não mencionar os amigos dos treinos diários aqueles que permitem que você se desenvolva no aikido: Anderson, Altair (pudemos pegar ótimas dicas com Donovan Shihan), Lemão (o cara recebeu até elogio de Yamada Shihan), e as garotas do Dojo a Elena (pessoa muito especial para mim, alguns saberão do que eu estou falando, outras ficarão na curiosidade mesmo) opa sem esquecer que tem também a Indyanara. O pessoal Jurassic Park também estava lá: Ivan, Rainer e Miguel (calma gente, eu também faço parte desse grupo).

Elena, Anderson, Indyanara, Altair, Donovan Shihan, Marcelo e Lemão

Claro que treinei com outros praticantes, mas, que só não menciono o nome porque não sei, mas também permitiram que eu tivesse uma ótima prática.

Mas ha uma pessoa que faço questão de mencionar, pois na minha opinião ele tem uma importância muito grande para alguns praticantes, essa pessoa e o Charles Mensh – “Chuck”. Quando o Chuck veio para o Brasil a primeira vez, ele veio como Uke de Donovan Shihan, e para nos era uma espécie de ligação que facilitava entendermos melhor o que Donan Shihan passava, em especial com relação aos Ukemis, afinal nossa distância em relação a Donovan Shihan era imensa (bom cá entre nos ela continua imensa). Nunca me esqueci da disposição de Chuck em nos ensinar os Ukemis e se esforçar ainda mais em fazer isso em nosso indioma, e olha que ele pegou muita gente pelo braço  para ajudar nos ukemis (valeu mesmo Chuck).

Lemão, Marcelo, Chuck, Altair e Anderson

Ainda tive a oportunidade de ser Uke de Donovan Shihan em uma correção de técnica, e ai malandro, é volta ao passado mesmo, muito bom, mas, muito bom mesmo!

Ah, todos devem estar se perguntando: “ e as técnicas treinadas, e os treinos?”. Bom é o seguinte não da para descrever em palavras, o legal mesmo é treinar e praticar. Fico aqui na torcida para ter mais o ano que vem.

Foi  um grande seminário, uma ótima prática, e um grande evento.

Muito obrigado Yamada Shihan obrigado a Donovan Shihan e parabéns a todos os organizadores.

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Créditos:
Texto: Marcelo do Nascimento
Revisão: Elena de Carvalho Stellfeld
Fotos: Conexão Aikido / Altair Massaro / Indyanra Galvão

Entrevista: Yamada Sensei (parte 4 – final)

De 25 a 27 de novembro de 2011 Yamada Sensei vai estar no Brasil comomorando 20 anos de sua primeira visita a nosso país. Para esquentar os motores para o Seminário de Yamada Sensei em 2011, segue uma entrevista em 4 partes que foi originalmente publicada em:  Senshin Aikido – Informações e inscrição para o Seminário de Yamada Sensei 2011.

(Por Peter Bernarth, 7º dan & David Halprin, 6º dan)

Hoje, 17 de fevereiro, é aniversário de nosso mestre, Yamada Sensei. Em comemoração, estou publicando a 4ª e última parte da entrevista dada a Peter Bernarth e David Halprin durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. A tradução, como nas outras, é da Cris. Se você não leu as outras partes, acesse: a primeira, a segunda e a terceira. É isso. Feliz aniversário, Sensei.

Mas todos vocês gostam de treinar vigorosamente? Muito físico, muito técnico?
Sim. Não agüento quando as pessoas não treinam pra valer… Por que vêm? Sempre falo pra mim mesmo que se não conseguir me movimentar mais como quero, fisicamente, eu simplesmente paro. Só porque fico mais velho e talvez não me mova tão bem… Não é motivo para mudar meu estilo. Se eu me vir fisicamente em deterioração, eu paro. Não quero mudar, negando a importância de treinar arduamente, “Oh, assim não, você tem que treinar com suavidade”.

Não quero que as pessoas treinem de acordo com minha idade ou condição. Não vou fazer isso. Eu simplesmente paro. Acontece… As pessoas não se movimentam como costumavam e começam a negar o fato. Não quero que isso aconteça comigo. As pessoas dizem, “Não vá naquele dojo. Você não tem que treinar de forma tão severa. É preciso ser suave.” Mas na verdade eles falam isso porque não conseguem fazer como deveria ser feito. Ou você escuta alguém falando “O-Sensei nunca fez um koshinage”. Isso é idiotice. Só falam isso porque não conseguem fazer… Começam a negar.

É claro que conforme você envelhece, precisa de algum ajuste, mas ainda assim pode manter a pureza, a postura sólida, a técnica limpa, clara. Você deve manter isso sempre. Não precisa ser desleixado. Olhe para o Osawa sensei. Ele não era desleixado mesmo sendo velho. Ainda tinha bom equilíbrio. Essa é uma das razões pelas quais o admiro e respeito, porque na idade dele, ainda era forte.

Na época que Tohei Sensei estava se desligando, você achou que aquela abordagem do tipo Ki se tornaria mais popular?
Não pensei isso, mas ainda assim, estaria tudo bem. Esclarece as diferenças. Por isso fico feliz que ele a tenha chamado de Ki Society, que não tenha usado o Aikido no nome de seu estilo.

Sabe, depois que Tohei Sensei falecer, não acho que alguém consiga fazer o que ele fez. Você não pode aprender algo assim apenas pensando assim. Não dá. Lembre-se, na época que ele se desligou, ele era fisicamente muito forte. Tinha uma boa técnica, vigorosa. As pessoas o viam fazendo demonstrações… E ele os convencia de que estava apenas usando o Ki, mas na verdade ele era muito forte.

Há muitas federações de Aikido hoje…
Isso é positivo. Nossa federação é importante para nós por alguns bons motivos. Pela união, para compartilhar idéias… Mas por outro lado me alegro de ver outras federações. É impossível esperar que todo mundo trabalhe junto. Eles têm idéias diferentes.

Nossos membros gostam de mim e Kanai Sensei e dos outros Shihan pessoalmente, e gostam de nosso Aikido. Ótimo. Se as pesssoas querem se juntar a nós porque gostam da nossa técnica, bem. É assim que somos. Por isso temos menos problemas do que outras organizações, porque vocês não estão envolvidos politicamente.

Essa é a reazão pela qual fazemos do jeito que fazemos. O principal é que vocês continuem praticando, é só o que precisam. Não precisam entrar em conflito com os outros. Vocês estão aqui principalmente para praticar, certo? Por isso as pessoas, principalmente na Europa, nos invejam. Dessa forma há mais tempo para treinar ao invés de toda hora ter que ir a reuniões.

Você ficou surpreso quando o Aikido começou a crescer tanto?
Sim e não. Acho que nem mesmo o O-Sensei imaginava que iria se tornar tão popular no mundo todo. Por outro lado, acredito que houve boas razões para o público ter aceitado o Aikido.

Por que ele se tornou tão popular?
Bom, várias razões… O aspecto espiritual é uma razão, claro, mas na verdade simplesmente por causa dos movimentos do Aikido. Todo mundo tem o desejo de estabelecer contato físico… Mas o judô talvez seja muito bruto, com muita luta e no karatê você não tem contato físico a não ser que esteja sparring. No Aikido há certo contato físico, mas com movimentos fluidos. Você aprecia o treino… Estabelecendo contato físico. É uma sensação boa. Às vezes, você se machuca, ou às vezes, machuca alguém… Mas isso te deixa feliz (risos).

É engraçado, na sua cabeça você acha que gostaria de bater em alguém. No Aikido você de fato tem esse contato físico. Você os arremessa no chão ou faz uma chave e fica satisfeito. Claro que no judô a história é diferente. Se quiser competir, não é fácil. Nem todos conseguem. É preciso excelente forma física. É difícil se você é mais velho ou pequeno. O Aikido está mais no meio. Você pode fazer como lhe agradar. Vigoroso, suave, como quiser. Acho que por isso ele é tão popular, porque as pessoas têm satisfação, independentemente de sua condição física ou limitações… E é efetivo.

Você poderia falar um pouco sobre a importãncia de sua relação com o Hombu dojo e os outros uchi deshi? Você freqüentemente traz shihans do Japão e outros paises para nossos seminários. Por favor, explique sobre os contatos com o Hombu agora e a manutenção das relações com aqueles professores.
Bom, como você sabe, tem havido alguma desavença quanto a certos assuntos, chegando às vezes a parecer uma Guerra Fria. Mas não sei, talvez estejamos exigindo muito deles, entende? Eles têm suas próprias situações e considerações. Isso é compreensível. Eles cometeram alguns erros conosco, os quais eles mesmos admitem atualmente. Eles têm suas desculpas, suas próprias circunstâncias. Entendo que é difícil porque sei como é. Quando você é o chefe há certas responsabilidades. Portanto, algumas coisas eu compreendo, porque embora esteja lidando numa escala diferente, também estou nessa condição, porém, algumas coisas têm que ser corrigidas.

Mas independentemente do que tenha acontecido, nós permanecemos conectados. Esse é um ponto interessante na sociedade do Aikido, temos um forte background, uma forte conexão com a família do fundador. Só no Aikido. No judô eles já a perderam. Quem se importa com a família Kano hoje?

E quem sabe… No Aikido pode acontecer a mesma coisa. Uma geração depois da nossa talvez eles nem saibam quem é Ueshiba. Não acredito que todo dojo coloque a foto de Moriteru. Duvido. Mas que posso fazer? Tento manter esse tipo de tradição e conexão. Uma linha direta. Por isso em todo Summer Camp tentamos convidar aqueles que estão trabalhando na instituição central, no Hombu.

Talvez parte do problema seja que nós todos fomos embora de lá. Eu, Tamura, Kanai, Chiba, Sugano. A nova geração não conheceu O-Sensei. Portanto, para a geração mais nova, talvez seja importante mantermos contato com eles, ensinar-lhes a história, como era com o O-Sensei no dojo naquele tempo. Houve um “gap” entre a segunda e a terceira geração. Fomos todos embora. Sentimos-nos meio culpados por isso. E isso nos traz a responsabilidade de manter o contato.

O mundo do Aikido parece ter crescido imensamente através dos anos. Hoje, todos vocês shihans, que partiram, possuem grandes organizações de Aikido fora do Japão. Muito da experiência do Aikido está agora fora do Japão. Você vê formas nas quais os Shihans internacionais possam colaborar com o Hombu dojo hoje e compartilhar suas experiências ?
É uma questão de confiar um no outro.

Em sua recente viagem ao Japão, em maio, você deu uma aula no Hombu dojo.
Aquela foi a primeira vez. A primeira vez que um de nós, shihan, deu uma aula regular lá, desde que saímos do Japão.

Você espera que esse tipo de coisa comece a acontecer com mais freqüência?
Quando eu estava falando com eles antes e depois da aula, disse que esperava ser essa a primeira de muitas oportunidades, tanto para mim quanto para os outros shihan. Senti ter aberto uma nova ponte e, de agora em diante, quando meu Sempai ou meu Kohai voltarem, espero que eles tenham a mesma oportunidade.

Dessa forma o conhecimento poderia ser comparttilhado.
Isso.

Você poderia falar um pouco sobre o Shihankai que foi formado recentemente?
Alguns fatos importantes… Claro, somos todos indivíduos diferentes, com diferentes formas de pensamento, diferentes formas de ensinar as pessoas, diferentes estilos de Aikido. Mas, se algo acontecesse a nós, algum conflito, acho que os alunos seriam os que iriam sofrer, porque, vamos supor que eu e Chiba Sensei tenhamos uma discussão e decidamos não trabalhar mais juntos. Nossos alunos são os que irão sofrer.

É importante estarmos juntos, não só pelo nosso benefício, mas pelo de todos, dos alunos. É importante que estejamos trabalhando juntos de alguma maneira, mostrando que temos boas relações, ao invés de ficar brigando. Porque nesse caso vocês serão forçados a tomar uma decisão. Como eu e Kanai Sensei. Se algo acontecesse entre nós, haveria separação completa. E vocês teriam que tomar uma decisão, fazer uma escolha. Isso é péssimo.

Por isso o Shihankai é uma coisa boa. Não por razões políticas, mas por amizade, por trabalharmos e aprendermos juntos. Cada um de nós tem uma maneira diferente de ensinar aos alunos, filosofias diferentes. Especialmente pelo tamanho de nosso país, tão grande. Não conseguimos manter muito contato entre todos hoje. Portanto, é bom trabalharmos juntos, fazer seminários um com o outro.

Então o Shihankai foi formado como uma maneira de dar continuidade à amizade e criar comunicação positiva?
Acho que sim. Idealmente, seria bom se todos os shihan se juntassem com freqüência e fizessem seminários. Seria muito bom. Mas de novo, por causa do tamanho de nosso país, é difícil. Em um país como a França é possível. Eles se reúnem com Tamura, todos os shidoins, mas aqui não é assim. Financeiramente, economicamente, nem todos podem se dispor facilmente.

Algumas vezes os shihan se reúnem como um grupo.
É, isso é bom. Como na celebração dos 30 anos do New York Aikikai na Colgate University. Vez ou outra, conseguimos juntar pessoas suficientes para apoiar esse tipo de evento. Foi ótimo.

É um grande benefício para seus alunos poderem treinar com todos vocês pelo menos uma vez.
É bom mostrar aos alunos que todos os shihans estão trabalhando bem unidos.

Uma coisa que sempre foi positiva é que mesmo tendo um professor principal, como Kanai Sensei ou você, nós também tivemos a oportunidade de passar bastante tempo aprendendo com os outros shihans, como Sugano Sensei, Chiba Sensei e Tamura Sensei. Tivemos o benefício de muitos professores e essa tem sido uma grande experiência para nós.
É bom. Vocês têm muita sorte.

Mas também foi importante para nós saber que era de um só professor que aprendíamos os fundamentos.
Isso é importante para que vocês não fiquem confusos.

É assim também que você vê isso?
É. Você pode ter a oportunidade de roubar algo bom de todos, mas seus fundamentos devem ser do seu próprio professor no dia a dia.

É esse um dos motivos pelos quais, por muitos anos, desde o início na verdade, você trouxe professores do Hombu?
Sim. É uma oportunidade para que eu mantenha boas relações com outros shihans. Se eu começar a ficar muito presunçoso, tipo não preciso de ninguém ou quero ser o chefão e coisa assim, o que irá acontecer? Suas oportunidades vão ficar limitadas. É por eu ter boas relações com Tamura Sensei que ele vem a Nova York ou ao Summer Camp.

Em troca, ganho a oportunidade de ir ao Summer Camp deles. É bom ter diversidade, mais oportunidades aparecem em um nível internacional, global. Porém, se eu estabelecer somente minha família, no gênero “não preciso de nenhum outro shihan”, por ter inveja deles ou coisa parecida, é péssimo. Sua habilidade de aprender fica limitada. É um mundo pequeno e acredito que devamos permanecer unidos.

Essa atitude parece ter sido benéfica. A qualidade de seus alunos é alta… Falando de nós mesmos!
Isso porque você foram expostos a bons professores. Naturalmente, tenho que julgar quem eu considero bom. Não vou convidar alguém que não é bom só porque é um amigo. Eu não faria isso. É desperdício de dinheiro e tempo. Mesmo não gostando particularmente de um shihan, eu o convidaria se achasse que é benéfico para vocês.

Como você vê o futuro, Sensei?
Bem, vocês é que me dizem, vocês são o futuro… (risos)

Como você gostaria que fizéssemos as coisas no futuro ou que direção você gostaria que tomássemos?
Só não quero que vocês se percam. Quero que saibam para onde ir. Não importa qual o argumento, continua sendo importante manter uma conexão com o dojo central, independentemente de quem estiver lá, porque aquilo é o que o publico vê. Essa é nossa organização, não interessa. É de lá que vêm nossos certificados.

Se algum dia tomarmos a decisão de romper com a instituição central será porque nos preocupamos com seu futuro. Mas não sei se seria uma boa decisão. Por exemplo, se ficássemos independentes e emitíssemos nossos próprios certificados da graduação de Dan. Enquanto estivermos aqui tudo bem, mas e depois de nós, o que irá acontecer? Mais tarde, as pessoas dirão, “O que significa esse certificado? É só um pedaço de papel.” Mas se ele vier da organização central, tem um valor inerente. Tem uma tradição.

É por isso que na Europa há dois testes para graduação de Dan. Um nacional e um da instituição central. Eles criaram o nacional, mas os alunos ainda querem fazer o exame Aikikai e pegar o certificado Aikikai. Essa é a realidade. As pessoas dão valor a essa conexão com a central. Não sei o que acontecerá depois que nos retirarmos. Veremos o que vai acontecer. Sei que vocês provavelmente continuarão a trabalhar junto com seus amigos na nossa organização aqui nos Estados Unidos e fora.

Você nos daria algum conselho quanto a essa situação?
A solução? Tenho que permanecer jovem. Tenho que viver muito. (risos)

Parece que já existe uma conexão sólida entre os alunos dos shihan internacionais. As pessoas freqüentemente viajam para seminários de outros grupos. Muitos shidoins estão ensinando internacionalmente. As relações já estão se formando entre os instrutores mais jovens. Parece que nosso futuro já está preparado e que iremos manter essa conexão. A forma como todos vocês têm trabalhado juntos tem sido passada para a nossa geração.
Acho que há amizades fortes no grupo que irão manter um elo. Espero que tenhamos construído algo que perdure. Mas nunca se sabe. Nem sei exatamente o que vai acontecer no meu próprio dojo quando eu me for. Quem ficará encarregado? Tentarei não deixar nenhum conflito, não sei como, mas é da natureza humana ter diferenças. Talvez algumas pessoas briguem pelo dojo.

O Havaí é um bom exemplo. Eles brigaram para ver quem poderia usar o dojo. Aquele dojo pertencia aos membros e eles acabaram brigando para decidir quem poderia usá-lo. O New York Aikikai também pertence aos membros. Portanto podem surgir problemas. Seria diferente se eu tivesse um filho que assumisse, como na família Ueshiba. Mas meu filho não está envolvido com Aikido, então fica difícil prever o futuro no que se refere à nossa federação. Poderia haver uma cisão, mas ainda assim haveria uma boa parte de vocês que permaneceria unida e manteria a ordem. Não sei quantos, não sei quem exatamente, mas acho que incluiria vocês David e Peter, Claude (Berthiaume), e Harvey (Konigsberg).

Acho que isso é algo que já deveríamos começar a pensar de alguma forma.
Sim. De agora em diante quero passar mais tempo fazendo isso. Pensando em como manter vocês e a organização unida. Por isso quero estabelecer uma comunicação direta entre vocês e a instituição central, para o futuro. Não importa o que aconteça, vocês precisam manter comunicação com o dojo central. Aonde mais vocês iriam quando fossem ao Japão? O sonho de todo mundo é ir ao Japão e treinar no Hombu Dojo. Não há como negar isso.

Você acha que o Hombu dojo está tentando manter uma boa conexão conosco também?
Sim, acho que eles estão vendo a importância disso e também estão tentando. Eles se preocupam com sua relação comigo e com os outros shihan. Nós conversamos sobre esses assuntos. Se eles cometem um erro, devemos abordá-los diretamente. Temos que ter capacidade de dizer ‘não’ se discordarmos.

Escrevi em um artigo que, sendo um líder, você deve ter pessoas que possam lhe dizer ‘não’. “Olha, sensei, isso está errado. Não acho que é boa idéia.” É importante que haja essas pessoas e você deve escutá-las. Não se está sempre certo. Eu cometo erros. Como o Peter, às vezes você vem e diz alguma coisa quando discorda de mim. Não me importo, se acho que a idéia é boa vou com você. Se não concordo, te mando pro inferno! (risos)

Sensei, queremos lhe agradecer por essa entrevista. Cobrimos vários assuntos diferentes. Foi meio livre, sem direção determinada.
Acho que um elemento importante aqui é fazer com que o público saiba quem e o quê nós somos. Falar francamente. Dizer que há alguns grupos que estão no caminho certo. Nesse momento, muita gente está perdida. Há tanta porcaria por aí. Eles não sabem onde encontrar o verdadeiro Aikido. Dessa forma, pelo menos, eles têm alguma informação para tomarem sua decisão. Foi uma boa idéia. Sempre estarei disponível para entrevistas como essa.

[parte 1] [parte 2] [parte 3] [parte 4]

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Conteúdo autorizado por Tharso Vieira
Créditos:
Texto: Peter Bernarth, 7º dan & David Halprin, 6º dan
Tradução: Cris
Fotos: Senshin Aikido

Entrevista: Yamada Sensei (parte 3)

De 25 a 27 de novembro de 2011 Yamada Sensei vai estar no Brasil comomorando 20 anos de sua primeira visita a nosso país. Para esquentar os motores para o Seminário de Yamada Sensei em 2011, segue uma entrevista em 4 partes que foi originalmente publicada em:  Senshin Aikido – Informações e inscrição para o Seminário de Yamada Sensei 2011.

(Por Peter Bernarth, 7º dan & David Halprin, 6º dan)

Nota do editor: Esta é a terceira parte da entrevista com Yamada Sensei que aconteceu durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. No trecho a seguir, Yamada Sensei de sua ida para os Estados Unidos, em 64 e da separação de Koichi Tohei do Aikikai. (você também pode acessar a primeira parte da entrevista, a segunda parte e a entrevista original, em inglês, publicada no Aikido Online). Mais uma vez, agradecemos à Cris pela tradução.

Yamada Sensei

Sensei, como você acabou vindo para os Estados Unidos?
Houve várias razões na verdade. A primeira foi por causa do idioma. Eu já falava inglês, não tão bem como agora, mas falava alguma coisa. Esse foi um motivo. Em segundo lugar, dava aula para os americanos nas bases militares no Japão, portanto estava familiarizado com a mentalidade desse povo. E também porque eu queria vir para Nova York. Sabia que Nova York era o meu tipo de cidade.

Eu tinha conhecido algumas pessoas daqui que já estavam praticando e sabiam o que era Aikido. Essa foi a razão principal. Eu vim em 1964, na época da Feira Mundial em Nova York. Inicialmente, (Koichi) Tohei Sensei estaria comigo nessa feira para fazer demonstrações de Aikido no pavilhão japonês, mas ele não pôde vir.

Por que ele não pôde vir?
Bom, não sei se eu deveria falar, mas ele estava bêbado uma noite, caiu e quebrou as costas. Acho que isso aconteceu umas duas semanas antes de nossa partida. É por isso que ele tem tanto problema com suas costas até hoje, resquícios daquele acidente.

Yamada Sensei

Então você permaneceu em Nova York após a Feira?
Bom, eu não sabia quanto tempo iria ficar. Eu achava que alguns meses, algo assim, mas, ainda estou aqui. Como eu disse, nenhum de nós achava possível se sustentar com o Aikido. A coisa meio que aconteceu. Tamura conhecia algumas pessoas na França, então ele já tinha um contato. A mesma coisa com o Chiba na Inglaterra. O Sugano casou com uma australiana e se mudou para lá com ela. Sei que as pessoas gostam de imaginar que havia um grande plano do Hombu Dojo, mas isso não é verdade. Não foi planejado, nós simplesmente fizemos tudo por nossa conta.

Você era casado nessa época, não era?
Sim, mas não pude trazer minha esposa até bem depois. Eu não tinha dinheiro e estava tendo muitos problemas com meu visto. Eu tinha um advogado imbecil. Se ele tivesse me conseguido um visto de turista logo no início eu não teria tido qualquer problema para conseguir o green card. Naquela época era fácil, mas eu tinha esse tipo especial de visto de intercâmbio cultural. Eles não têm mais isso, mas como era o que eu tinha, me deu muito trabalho para obter o green card. Nunca sabia se eles iam me mandar embora.

Depois, com a família aqui, especialmente meus dois filhos que nasceram aqui e cresceram como cidadãos americanos, eles tinham que pensar antes de me chutar para fora. Porque era obrigação deles proteger os cidadãos americanos. Eles não se importavam comigo, minha esposa ou Mika, minha primogênita nascida no Japão, apenas com meus filhos americanos.

Uma vez me disseram: “OK, deixe os seus dois filhos americanos aqui e vá para casa. Você, sua mulher e sua filha mais velha simplesmente vão embora. Inacreditável! Então tive que arranjar um monte de desculpas relacionadas aos meus filhos, do porquê eu não podia ir embora. Só por isso eles me deixaram ficar”.

A primeira desculpa que usei foi que se eu voltasse para o Japão, não ganharia o suficiente para sustentar a família. Minha empresa, que era o Aikikai, Hombu Dojo, não podia me pagar o bastante para sustentar dois cidadãos americanos. Então eles tiveram que reconsiderar. Claro que tive que pedir para o Hombu Dojo escrever uma carta dizendo o quanto eles iriam me pagar se eu voltasse a ensinar lá. Levei a carta para a imigração e levou de 3 a 4 meses para eles tomarem uma decisão. Então finalmente disseram não, você tem que ir embora.

Então, a próxima desculpa, pelo que me lembro, foi a saúde das crianças. Disse que o Japão era muito úmido, não era um bom lugar para um bebê crescer, um cidadão americano. Então de novo eles reconsideraram mais um pouco. Naquele tempo um de meus alunos trabalhava na imigração. Toda vez que ele ia até a escrivaninha e via meus documentos, os colocava de volta em baixo da pilha! (risos). Tentei de tudo. Não sei quantas vezes fui à imigração. Odiava fazer isso.

Agora, tem uma coisa boa que o Presidente Nixon fez, ele cancelou aquele programa de visto para intercâmbio cultural. Portanto, de repente, eu não tinha mais um status definido. Eu era livre. Porque uma vez residente você não pode deixar de ser. Ponto. É a lei. Então, a primeira coisa que você deveria fazer era pegar a permissão do Departamento de Trabalho. Peguei essa permissão da imigração e Departamento de Trabalho. Eles colocavam um anúncio no New York Times: “alguém tem uma graduação maior do que a minha em Aikido?” Se um americano se apresentasse, eu não recebia o visto. Eles não querem que você pegue o trabalho dos americanos.

Mas aí, depois de tudo esclarecido, tive a permissão para ficar. Por isso tive que enviar minha família de volta ao Japão, mesmo sendo cidadãos americanos e tendo passaportes americanos; porque eu não sabia quando eles iriam me mandar para fora do país e não os queria presos a mim nessa hora. Naquela época você podia ir para o Canadá por um dia e retornar como turista. Mas eu não tinha o visto de turista, não podia fazer isso. Se deixasse o país, era o fim. Não poderia voltar por dois anos. Por isso mandei minha família de volta.

Quanto tempo eles ficaram longe?
Bom, eles começaram a estudar lá. Ainda bem que minha família podia tomar conta deles. Não havia como sustentá-los com minha receita de Aikido naquela época. Como eu ia fazer? Sinto-me mal quanto à minha família, não tenho muitas lembranças com as crianças. Estávamos separados, e, quando eles retornaram, eu estava ocupado, e não estávamos tão bem financeiramente quanto hoje.

Eu não podia simplesmente levá-los para onde eu ia. Para um seminário, de jeito nenhum, impossível. Levei Nima uma vez para um Summer Camp quando era pequena. Esse é meu único grande arrependimento, o tempo que não passei junto à minha família.

Como eram as aulas no New York Aikikai nessa época, nos primórdios?
No início, todos os alunos eram ex-praticantes de judô ou karatê. Eles eram os únicos interessados. Nós não anunciávamos publicamente. Também havia o pessoal do Tai-Chi. Enquanto dava aula, podia escutá-los no vestiário discutindo tudo, as técnicas, a efetividade. Havia um cara, Lou Kleinsmith, que era instrutor de judô e professor de Tai-Chi e era meio metido a esperto. Ele sempre falava para o pessoal “É assim que realmente funciona, blá, blá,blá”, e mostrava algum truquezinho ou coisa parecida. Claro que não era Aikido. (risos).

Então, mais ou menos nesse período, começou a febre do karatê. Eu tinha bom relacionamento com todos os professores americanos de karatê, portanto, toda vez que eles tinham um torneio, me convidavam para fazer demonstrações no Madison Square Garden e em outros lugares. Me convidavam quase toda semana. Claro que não me pagavam, mas era uma boa oportunidade de difundir o Aikido.
Yamada Sensei - Demonstração

Então as pessoas que viam as demonstrações…
Sim. Toda vez que eu fazia uma demonstração eles adoravam. Depois de ficar vendo karatê por 3 a 4 horas, eles se cansavam daquilo e queriam algo novo, diferente. Eu entrava no palco, não ficava muito tempo, só bam, bam, bam e acabou. As pessoas nunca haviam visto nada parecido. Eles adoravam. No dia seguinte, apareciam no dojo.

Então isso realmente ajudou o Dojo a crescer?
Ajudou, porque essa é a única forma de se fazer propaganda. É o único jeito de fazer com que as pessoas saibam o que é o Aikido. Por isso não gosto mais de fazer demonstrações. Fiz tantas que me cansei disso. Foi um exagero. Mas nós aproveitávamos qualquer oportunidade.

Fiz uma demonstração nas ruas do South Bronx, no asfalto. Era inverno, portanto eu estava usando luvas pretas. Me lembro de um cara dizendo, ‘Oh, ele é um matador, tem luvas pretas!’ (risos). Naquele tempo muita gente tinha idéias doidas sobre as artes marciais. Sabe como é… Eles copiavam o Bruce Lee do seriado de televisão que existia.

O “Besouro Verde”?
Isso mesmo. Esse programa ajudou muito a trazer popularidade às artes marciais, mais interesse. E tinha um outro cara … fiz uma demonstração com ele, aquele astro de cinema … ele faz o Texas Ranger hoje.

Chuck Norris?
Isso, ele. Chuck Norris. Um cara legal. Costumávamos fazer demonstrações juntos. Ele gosta de Aikido. Fizemos uma demonstração no Hilton de Nova York.

Certa vez fiz uma demonstração com um professor de karatê. Foi engraçado, meus alunos eram muito maldosos. Ele fez uma demonstração na qual ele cortava fora o gargalo de duas garrafas de uísque com as mãos… bam, bam, bam. Então meus alunos brincavam, “o pessoal do karatê vai e arranca os gargalos do uísque e o pessoal do Aikido vem e bebe.” (risos)

Parecem tempos selvagens.
Sim, era selvagem.

Quem eram algumas das primeiras pessoas no dojo?
Bom, deixe-me ver. No início eu não tinha onde morar, então dormia no dojo, no vestiário, com Angel Alvarez. Angel era uchideshi. Era um garoto de 13 anos. Ele estava estudando. Não me lembro exatamente como ele foi parar no Dojo. Terei que perguntar a ele. Mas no Dojo antigo nós morávamos juntos. Ele ia pra escola depois do treino. Era um menino bonitinho, inocente, sabe?

Isso é difícil de acreditar (risos). Ele foi o primeiro uchideshi no New York Aikikai ?
Mais ou menos, sim. Ele foi o primeiro.

Embaixo: Sunil; Acima dele: Chuck, Ben e Heidi; Em cima: Clauber, Eduardinho, Tharso e Angel Alvarez - dobrando o hakama -, o primeiro uchideshi do New York Aikikai.
Embaixo: Sunil; Acima dele: Chuck, Heidi e Ben.
Em cima: Clauber, Eduardinho, Tharso e Angel Alvarez, o primeiro uchideshi do New York Aikikai.

Então ele estava lá antes do Harvey?
Estava. O Harvey veio depois do Harry McCormack. Acho que Harry o apresentou ao Aikido. Mike Abrams já estava lá. Ele estava cursando o último ano da faculdade ou coisa assim.

Quantos membros havia no New York Aikikai nos dois primeiros anos?
Talvez 50 membros pagantes. Como disse, naquela época eles não tinham condições de alugar um apartamento para mim. Não havia dinheiro sobrando, só o suficiente para pagar o aluguel e a luz. Eu havia trazido alguns dólares comigo do Japão. Se não fosse isso, não teria durado muito.

Menti para o meu pai quando vim para cá, dizendo que ia para a Columbia University. Foi assim que consegui que me desse dinheiro para ficar. Fui lá um dia (risos). Fazia um curso de inglês. Tudo que eles me ensinavam era ‘This is a pen… is this a pen?”. Eu pensei “que diabo…” (risos). Não preciso pagar por isso. Já sei o que é uma caneta! (risos).

Prefiro ir à um bar e aprender inglês “vivo”. E foi o que fiz. Foi assim que aperfeiçoei meu inglês. Mas tinha que mostrar para meu pai que freqüentava a faculdade. Era só por isso que ele me mandava dinheiro.

Quando você começou a pensar em fundar a USAF (Unites States Aikido Federation)?
Posso pensar em duas razões: uma foi por causa do rompimento de (Koichi) Tohei Sensei com o Aikikai. Tínhamos que ter nossa própria identidade. E também, por causa da fundação da International Aikido Federation. Fomos mais ou menos forçados a nos unir rapidamente. Não fomos avisados de nada até tudo já estar estabelecido, porque era uma situação mais européia.

Então o Chiba nos perguntou se iríamos aderir. Falamos OK, e ele então disse que teríamos que formar uma federação nacional para entrar como membro. Foi por isso que começamos. Tivemos que fazer inúmeras reuniões para organizar tudo isso. Yoshioka, no Havaí, cooperou. Juntamos um bom grupo de pessoas. Bill Witt, Frank Doran, Bob Nadeau… O grupo da Costa Oeste.

Quem era o Shihan aqui na época?
Kanai Sensei, claro. Akira Tohei Sensei estava em Chicago na época… Ele ficou no Havaí antes disso por um bom tempo. Na verdade, ele estava no Havaí quando eu estava a caminho de Nova York em 1964. Dei uma passada lá para encontrá-lo. Ele foi enviado para ficar lá pelo período de dois anos. Naquele tempo ele era aluno direto do Koichi Tohei. Por isso Tohei Sensei o mandou para lá. Então ele retornou ao Japão por um tempo, e depois foi para Chicago.

Então a USAF foi formada depois da saída de Koichi Tohei Sensei do Aikikai?
Foi. Nós já tínhamos alguma coisa como uma associação na Costa Leste, mas nada nacional.

Imagino que foi um período difícil quando Koichi Tohei saiu.
Foi. Foi uma grande ruptura. Alguns dos professores japoneses foram com ele. Na maioria os alunos diretos mais antigos de Tohei Sensei em sua cidade natal. Toyoda foi um dos que rompeu. E também Shuji Maruyama. Ele estava em Cleveland inicialmente. Tinha sido contratado por alguma escola de arte marcial de lá. Depois ele se mudou para a Filadélfia. Ele foi junto com o Tohei, o que foi bom para mim e Kanai. Ele era muito chato (risos). De certa forma achei esse rompimento muito ruim, porque não sabia como e exatamente por que o Koichi Tohei havia mudado de idéia quanto ao Aikikai.

Mas… Ele era um bom líder. Tinha carisma. Era forte, positivo. Sempre falava tudo diretamente. Ele era muito bom, um chefe fácil e tranqüilo. Por um lado detestei isso ter acontecido, mas por outro lado foi uma mudança positiva.

O Aikido se tornou mais claro, o aspecto da técnica em si. É bem mais claro o que ensinamos hoje. Sabe… Aquelas coisas do Tohei… Braço não-dobrável, ki, ki, ki… Muita filosofia, pouca técnica básica. Então por um lado é bom que tenha acontecido assim. Também foi bom o que aconteceu com o Saotome. As pessoas que foram com ele… Limpou a casa de certa maneira.

Então apesar de ter uma relação pessoal próxima com Koichi Sensei, você não quis se separar?
Eu fui bem franco. Ele tinha tanta certeza que eu iria com ele… Foi um erro de cálculo muito, muito grande da parte dele. Ele não tinha dúvidas de que eu o apoiaria. Eu tinha muita influência… Ele achou que teria todos os Estados Unidos. Eu lhe escrevi, “Eu positivamente lhe respeito, ainda o considero como um professor, mas ouvi lados diferentes dessa história, das razões pelas quais você está saindo da organização.

Tenho uma responsabilidade quanto aos meus alunos. Se estivesse só por minha conta, talvez fosse com você, mas não posso.” E essa é outra coisa boa nele. Ele me escreveu uma carta simpática dizendo, “Entendo sua situação, que é muito clara.” Ele foi muito amável e não tive problemas quanto a isso. Mas antes disso, ele não tinha dúvidas que eu iria junto.

Ele também achou que os outros iriam com ele?
Isso eu não sei. Provavelmente. Acho que ele é um homem muito confiante… Achava que os Estados Unidos estavam com ele, então talvez tenha pensado que sim, mas não foi como aconteceu. Até mesmo no Havaí, que era seu próprio território, eles também não o seguiram.

Yoshioka estava encarregado lá, mas ele também não saiu. Yoshioka era uma pessoa bem antiquada. Sua mentalidade era muito leal, sabe? A instituição é a instituição. Vem primeiro lugar. É nosso dever. Pessoalmente, gosto do Tohei Sensei. Mas faço parte de uma organização. Algumas pessoas saíram com ele e depois se separaram dele também. Todos fizeram a mesma coisa que ele fez.

Isso é interessante. Quando um grupo se divide, as pessoas freqüentemente tornam a se dividir
É como uma reação nuclear, divide, divide, divide.

Você acha que as pessoas enfatizaram mais o aspecto técnico do Aikido como resultado disso?
Acho. As pessoas mais sossegadas, mais tranqüilas, tinham uma atração por Tohei Sensei. Pessoas que não querem treinar muito arduamente, que não querem sofrer. Ele as atraía com aquela filosofia de ensino. Era fácil de fazer. O treino não era tão puxado. Por isso falo que foi bom que tudo aconteceu. Esse pessoal foi com ele e nós não precisamos deles.

É claro que Tohei Sensei tinha muitas coisas boas para oferecer. Inclusive muitas coisas que faço hoje, aprendi com ele. Mas jamais poderia fazer aquilo cem por cento do tempo. Impossível. Mas ele nos deu alguns pontos muito bons. Benéficos. Não há dúvida. Mas não gosto de ser parcial e insistir que tem que ser só desse jeito.

Sensei, você poderia falar um pouco mais sobre o grupo que permaneceu unido? Sobre nossa forma de treinar com mais ênfase no aspecto técnico, na prática árdua? Por que você acha isso importante ?
Porque no final das contas, as pessoas falam sobre esses aspectos espirituais das artes marciais, budo, mas o budo é, ainda assim, um compromisso físico, contato físico. Você aprende com seu corpo praticando movimentos físicos. Por isso digo que não gosto dessa abordagem demasiadamente parcial, enfatizando apenas o lado espiritual. Além disso, gosto de manter a pureza da arte que aprendi com O-Sensei, que é o que acredito que esteja fazendo.

E os outros uchi deshi que estavam no seu grupo compartilhavam dessa mesma abordagem?
Creio que sim. Ângulos diferentes, é claro, mas isso é que é bom no Aikido. Todo mundo é diferente, desde que não vá longe demais. Há estilos diferentes, as pessoas estudaram em diferentes épocas com O-Sensei, e portanto foram expostas a coisas diferentes. Basicamente, há uma similaridade entre nós… Sugano, Chiba, Kanai, diferentes abordagens, diferentes ângulos, mas isso é natural.

Mas todos vocês gostam de treinar vigorosamente? Muito físico, muito técnico?
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Conteúdo autorizado por Tharso Vieira
Créditos:
Texto: Peter Bernarth, 7º dan & David Halprin, 6º dan
Tradução: Cris
Fotos: Senshin Aikido