Bruno Gonzales e Pascal Guillemin

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Este video foi realizado durante o Estágio dirigido por Bruno Gonzales 5º dan Aikikai e Pascal Guillemin 5º dan Aikikai, ambos aulos e Christian Tissier 7º dan Shihan Aikikai, Bruno Sensei e Pascal Sensei fazem parte da equipe técnica  do Cercle Tissier.

Este Estágio foi realizado em 2012 no Cercle Tissier.

Para quem ainda não teve a oportunidade de ler (quem já leu , tá ai uma ótima oportunidade para ler novamente) segem os links das entrevistas que Buno Gonzales e Pacal Guillemin, fizeram para a Aikido Magazine, entrevistas  traduzidas para o português.

Agradeço a Bernhard Wardein (Aikinomichi Dojo Vienna/Austria) que autorizou a publicação deste video.

Uma dica, alterem a configuração da qualidade do video para 720 HD e assistam em tela cheia

Video original de: Canal von AikinomichiWien.

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Conteúdo autorizado por Bernhard Wardein (Aikinomichi Dojo Vienna/Austria)
Créditos:
Texto: Marcelo do Nascimento
Revisão: Elena de Carvalho Stellfeld
Video: Canal Youtube – Canal von AikinomichiWien.

Entrevista: Pascal Guillemin 5º dan (parte 3/3)

3 parte da Entrevista com Pascal Guillemin
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parte 1] [parte 2] [parte 3]

Eu imagino que o que esses alunos especiais lhe oferecem em retorno deva ser algo considerável.

Isso pode parecer estranho, mas eu encontro uma qualidade humana nesse meio que   não encontro necessariamente em outros lugares, em contextos ditos… normais.

Eu me dou conta de a que ponto o humano é complexo. Eu não ensino para nada, eu procuro entender. Muitas questões ficam ainda sem respostas. Como podemos cometer atos extremamente graves contra alguns e ao mesmo tempo ter as melhores intenções com relação a outros ? Não é simples. Ninguém está ao abrigo do pior que possa haver… nem do melhor. No tapete, não sinto nenhuma pressão advinda do meio circundante. Dou uma aula de aikidô como em toda parte no mundo. Poderíamos pensar que um certo hábito se instalou, e no entanto, em cada aula, sempre o mesmo calor humano, a mesma escuta, o mesmo respeito, nenhuma lassidão toma conta.

Dos dois lados, é muito rico de ensinamentos, as ideias pré-concebidas caem, os complexos também. Logo na primeira aula, tentei mostrar como ai hammi katate dori que o que podia se passar por um ataque é primeiro uma troca. Nesse sentido, posso afirmar que tenho um retorno de qualidade excepcional.

Essas técnicas de gestão do stress  podem ser aplicadas em outros lugares?

Claro, em meio hospitalar por exemplo, onde eu também ministro aulas para o pessoal de serviço confrontado ao estresse das urgências hospitalares, sem mesmo ir tão longe na técnica, apenas permanecendo no plano dos princípios de funcionamento do aikidô. É muito bem recebido e compreendido, a mensagem é muito eficaz. Não se trata no entanto de se chegar a fazer campeões de aikidô em vinte sessões, mas de se fazer entender que não adianta nada ficar preso aos seus conflitos, que é necessário buscar soluções para alcançar o objetivo fixado. Eu aplico nesse âmbito os princípios universais de aikidô, também para a preparação física e mental de esportes de alto nível.

Quais são suas ambições hoje?

Primeiro, continuar a praticar ainda e sempre, ensinar e transmitir a riqueza do aikidô. Além disso, com um amigo fisioterapeuta e neurologista, eu desenvolvi um conceito inovador para o preparo da mente, do físico e da fisiologia na qual o aikidô tem um lugar preponderante.

…Quando dou aulas, quero me colocar no nível dos meus alunos. O que me importa é  dar o melhor de mim mesmo, sobre o tatame e também fora do dojô…

Nós trabalhamos sobre a neurofisiologia estando à escuta do corpo. Praticando exercícios corporais adaptados, temos efeitos imediatos sobre o psiquismo do atleta. Trabalhando de outro modo sobre o psiquismo com, sobretudo, o método de relaxamento progressivo de Jacobson, chegamos a efeitos positivos insuspeitáveis sobre o corpo. Para se chegar a isso, eu me apoio sempre que possível sobre minha prática de aikidô e conto com a minha experiência esportiva para personalizar e tornar eficaz cada intervenção, em função de cada indivíduo.

Muito mais do que ser treinador, nós estamos na esfera da perícia. Eu emprego também um pouco de meu tempo em um projeto com a P.P.J. (Protection Judiciaire de la Jeunesse), por intermédio de um amigo karateka, Alain Trouvé, cofundador de uma O.N.G., Atletas do Mundo, da qual o presidente é Jean Galfione. Trata-se de reabilitar os jovens que passam por dificuldades, que são carentes e que estão perdendo suas referências, pela prática das artes marciais. A P.J.J., que depende do Ministério da Justiça, está muito receptiva a esse encaminhamento que propomos pôr em prática. Precisamos de pessoal em todos os setores de atividades.

Como é que você se define?

Eu sou antes de mais nada um aikidoka, depois um professor. Se eu não pudesse mais me submeter aos treinos, acho que interromperia minhas atividades de professor. Para mim, é muito importante ser uke, praticar os dois papéis.

Eu tenho 33 anos, eu sou 5° dan desde há pouco e, mesmo que pareça ainda cedo, eu não quero apenas brincar de ser professor. Tenho realmente necessidade de sentir que eu também sou aluno para manter o meu equilíbrio, sendo ainda verdade que eu tenho muito a aprender.

Quando eu dou aulas, quero me colocar à posição de meus alunos. O que me importa é dar o melhor de mim mesmo, sobre o tatame e também fora do dojô…
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Entrevista original em Francês
Leia e entrevista completa no issuu.

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Conteúdo autorizado por Pascal Guillemin Sensei e Sylvette Douche Diretora Administrativa da FFAAA
Créditos:
Texto e Fotos: Aikido Magazine – Dezembro de 2006
Tradução para o Português: Cristina Vaz Duarte
Revisão do Português: EDF (Design Gráfico e Web Desgner)
Revisão Geral: Elena de Carvalho Stellfeld

Entrevista: Pascal Guillemin 5º dan (parte 2/3)

2 parte da Entrevista com Pascal Guillemin
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a fluides na aplicação das técnicas garante uma prática de qualidade.

Quais foram seus encontros fundamentais?

Eu diria que um encontro essencial foi com Christian Tissier. Com ele, eu realmente aprendi o rigor. Sua exigência de perfeição me convém perfeitamente. Sua presença é sempre um enriquecimento para mim; suas qualidades humanas, tanto sobre o tatame como na vida, lhe conferem essa facilidade de se apagar dela os problemas e as asperezas.

Eu me lembro que no início, há mais de vinte anos mais ou menos, eu estava em seiza; trabalhávamos em três com dois parceiros, e ele me disse: “O que você vier a aprender aqui, você poderá levar para a vida do dia a dia”. Ele me disse isso assim, como quem não quer dizer nada. Eu tinha 16 anos, e fui entender depois que ele não estava falando em resolver uma situação pelo confronto, mas que se referia à troca de respeito, de reconhecimento, de compartilhamento. Christian Tissier me transmitiu os princípios que eu tento pôr em prática na vida, tanto no dojô como no interior de uma central penitenciária: não ficar embotado, negociar problemas; se não passar em omote, passar em ura.

Quais foram os ensinamentos transmitidos por senseis como Endo ou, ainda, como Yasuno?

Entre o dinamismo de Yasuno sensei e o relaxamento de Endo Sensei temos quase toda a gama do aikidô.

Eu diria que o relaxamento físico e mental em Endo sensei, bem além da técnica, nos mostra o caminho, mas também o trabalho a ser abraçado para alcançar esse nível de perícia. Com Endo sensei, nós percebemos que a técnica é um álibi, uma ferramenta para ir na direção de outros domínios não tão evidentes, à primeira vista, para certas pessoas que podem pensar que o aikidô se resume a uma técnica para quebrar os braços ou imobilizar um agressor. Endo sensei nos mostra que o relaxamento no aikidô é também um meio formidável para gerenciar mentalmente o stress. Residem nesse fato alguns de seus benefícios, que deveriam, a meu ver, ser mais amplamente divulgados.

O aikidô, a arte marcial, é arte de combate ou não?

Eu preciso desse aspecto da disciplina. Se fosse apenas uma coreografia, eu teria feito dança. O conteúdo marcial do aikidô permite desenvolver qualidades intrínsecas. O aikidô é antes de mais nada uma arte marcial, caso contrário perderia seu sentido e coerência, além da eficácia que oferece para o gerenciamento do stress. Desvincular dele a sua essência marcial seria caminhar em outra direção, que fosse aquela de uma outra atividade, cujo nome fosse outro. Mas o principal é o sistema de educação que se origina nele.

Em que momento a sua prática evoluiu em direção ao ken?

Muito cedo, de fato, desde meu primeiro ano de prática, eu cursava as aulas de Christian Tissier pela manhã das 7h às 8h, antes de ir para a escola.

O lado samurai do sabre era muito fascinante para um jovem praticante, como eu era naquela época. O ken é uma disciplina por ela mesma, muito próxima da prática com mãos vazias, mas traz uma dimensão marcial complementar que requer adrenalina e que não se conhece no aikidô. Poder fazer no ken um corte rapidamente, e parar a alguns milímetros do seu parceiro, está no nível do domínio e da beleza do gesto, muito exigente e muito completo. As sensações são muito particulares.

Com Christian Tissier, eu trabalho o kenjutsu e o aikiken.

O aikiken desenvolve qualidades específicas, ligadas às distâncias da prática e aos tempos de reação mais curtos. O trabalho de posturas no kenjutsu está provavelmente mais exigente, mas as posições dos pés, as atitudes e os movimentos do ken são muito próximos daqueles do aikidô, o que explica provavelmente que tenha mais sucesso junto aos aikidokas. Eu pratico indiferentemente os dois por sua complementariedade. Hoje, não posso mais dissociá-los.

A prática do ken me traz a compreensão do aikidô. Enviar um shomen de mãos vazias pode apresentar um certo perigo; quando se tem um ken nas mãos é outra coisa, estamos numa outra dimensão, que requer uma maior concentração.

Com o ken, por exemplo, não se pode colocar o braço para bloquear um ataque; é preciso desenvolver outras soluções e outras qualidades físicas e mentais.

Hoje eu ensino cada vez mais ken, da escola Kashima de Inaba sensei, que Christian Tissier me transmite.  O estudo aprofundado dos katas abre perspectivas ao infinito.

a prática com armas de ken-jutsu ou de aiki-ken, desenvolve qualidades específicas

Esse gerenciamento do stress, eu imagino que se aplique perfeitamente no âmbito de um universo carcerário, fechado, sem liberdade. Como o senhor chegou até o ensino em ambiente carcerário?

Primeiro, ninguém está livre de passar um certo tempo na cadeia. É importante dizer isso. Apesar de isso não ser desejável, pode ocorrer a qualquer pessoa.  Ser privado de liberdade é terrível, é preciso ter estado nesse tipo de lugar par se dar conta realmente. Há muito tempo que penso que o aikidô pode desempenhar um papel importante para essas populações em dificuldade. Já com 20 anos eu pensava nisso. Eu era jovem demais para ir até lá, teria sido um erro ter feito isso prematuramente. Alguns anos mais tarde, na maturidade, mais tecnicamente preparado também, eu senti que o momento havia chegado.

Eu lido com praticantes muito receptivos. É possível compreender muito rapidamente que a eficácia da técnica passa em segundo lugar, que existem outros modos de ser tremendamente mais eficazes. Para eles, existe no tatame, na prática, uma liberdade que eles não têm mais em vida.

A prática com armas e do kenjutsu ou de aikiken desenvolvem qualidades específicas.

É preciso dominar dia a dia o stress do encarceramento em um universo onde reina a lei do mais forte. Deixar seu corpo se expressar livremente, no estado de criação: nesse ponto reside o que é primordial.

É esse o âmbito para o qual o aikidô pode trazer uma ferramenta para controlar e até mesmo dominar esse stress. Em 1999, a pedido da administração penitenciária, nós fomos em cinco pessoas, dentre as quais Patrick Bénézi, que havia sido o contato na praça. Fomos fazer uma demonstração seguida de um debate na Centrale de  Poissy[1]. Eles foram fisgados, administração e presos inclusos. Foi a conta para serem, a partir de então, público-alvo de estágios. Eu estava disponível e fui para lá com Bruno Gonzales. Nós ainda estivemos, no início, sediados numa pequena sala de box, num ambiente um pouco peculiar, mas deu tudo certo para eles e para nós durante quatro dias seguidos. Depois disso a administração da penitenciária nos pediu que substituíssemos um preso que dava aulas, e eu aceitei o desafio. Eu tenho outras propostas para outros estabelecimentos que poderiam interessar a outras pessoas. Mas, atenção; não se pode enganar na sua fala. Existem falas que não podemos ter, do tipo: “É bom, a gente relaxa, liberem o que está dentro de você, etc.” A gente precisa se concentrar ao máximo para evitar cometer certos erros, mas sem que isso represente um impedimento. O universo carcerário tem suas regras próprias, o contato físico tem aí um sentido bem peculiar. O basquete, por exemplo, é banido desse meio, para evitar contatos acirrados que pudessem rapidamente degenerar.

Então ensinar o aikidô, disciplina particularmente tátil, requer uma adaptação. No que se refere a mim, eu tentei concentrar todos os meus esforços na noção de troca.

É uma aventura humana incrível baseada no sentido da palavra “compartilhar”. Há um ano agora que eu ensino até mesmo as armas, o que era inimaginável há pouco tempo. Falar de trabalho com armas tem um sentido muito preciso numa prisão e, no entanto, de mãos em punho, fazemos entrar bokken e tanto e tudo corre muito bem. Algo de espetacular ocorre nesse grupo que agora se autogerencia, numa confiança recíproca. Eu nunca tenho o sentimento de dar uma aula a detentos, mas simplesmente dar aula a aikidokas, com um percurso peculiar, é verdade, mas que não impede a harmonia de comparecer.

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[1] Centrale de Poissy é uma penitenciária construída em um prédio histórico da cidade de Poissy, na França. http://www.annuaires.justice.gouv.fr/etablissements-penitentiaires-10113/direction-interregionale-de-paris-10121/poissy-10648.html.

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Conteúdo autorizado por Pascal Guillemin Sensei e Sylvette Douche Diretora Administrativa da FFAAA
Créditos:
Texto e Fotos: Aikido Magazine – Dezembro de 2006
Tradução para o Português: Cristina Vaz Duarte
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Revisão Geral: Elena de Carvalho Stellfeld