Christian Tissier Shihan: Aikido e Progresso (entrevista em português) parte 3/3

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A flexibilidade e a força se opõem durante uma prática exemplar do Aikido ou inversamente, em que casos elas são complementares?

Penso que é essencial distinguir entre alguém que é naturalmente forte, mas que sabe utilizar seu poder sem empregar a força e um outro que tomasse por base de toda sua prática unicamente sua força. Independentemente de saber que isto seria fatal para o progresso de sua técnica, sendo ela ofuscada por essa “passagem à força”.

A utilização desta força é sem dúvida limitada pela idade e, em vez de progredir com o tempo, o praticante se tornaria mais rígido, se esclerosaria cada vez mais, as consequências seriam, obviamente, totalmente negativas. Devemos nos lembrar de que todo o trabalho de precisão da técnica visa obter a máxima eficiência com o mínimo de esforço.

No caso da flexibilidade, acontece o mesmo, é essencial distinguir entre a flexibilidade articular e a flexibilidade na ação. Se a técnica não for precisa, a ação aleatória, e ainda que haja pouca agressão surpresa ou medo, o mais flexível dos praticantes se tornará imediatamente rígido e tentará compensar com o que está acessível imediatamente, ou seja, com um sentimento de rejeição, de recusa e uma força crescente nos ombros. Não pode haver movimento naturalmente executado sem que haja flexibilidade. Natural, significa que há um hábito, portanto economia, portanto precisão… é somente através de um movimento técnico flexível e sem bloqueios, físicos ou mentais (portanto sem medo) que a força se expressa liberando um grande poder.


O trabalho do Ki é suficiente para abrir a porta do Aikido; não seria necessário um treinamento mais físico?

É evidente, o problema do Ki, se de fato é possível defini-lo com precisão, é sua fluidez, sua livre circulação e seu intercâmbio exterior-interior e a seguir em harmonia com os elementos que nos cercam. Você pode fazer exercícios, sozinho ou então com um parceiro particularmente complacente: aprender a colocar os ombros, as costas, a pelve, a respiração, buscar seu centro etc.

Mas quando há agressão, fictícia ou real, quando há uma relação com o outro, sem treinamento intensivo prévio, sem uma real experiência, sem calma, para conservar sua colocação, os ombros para baixo, a posição do Hara etc. O Aikido desenvolvido por 0’Sensei e escolhido como base de prática por nós mesmos em conhecimento de causa é um budo, o atacante é o álibi com o qual é preciso encontrar uma solução harmoniosa ao conflito, Ki, ainda que este último não o desejar.

O Aikido é um budo, então pode ser considerado unicamente como uma arte de defesa?

Um budo é um sistema, físico, mental, humano, de educação marcial, que deve desenvolver, no mais alto grau, as qualidades inerentes ao ser humano desenvolvendo também e ao mesmo tempo as constantes do estudo do “caminho” que deve ser lembrado: a busca do gesto puro, resultando em pureza da mente, o respeito, a atitude certa no momento certo, a espontaneidade etc. Reduzir o budo simplesmente a uma arte de defesa, é esquecer sua dimensão de abertura para o mundo e se enganar de época e de armas. Quando todas as qualidades do budoka são adquiridas, inclusive a arte da defesa, ele pode seguir em frente, trilhar seu caminho no mundo, para comunicar, viver e amar, sem temor por ele e pelos outros. Aquele que pratica somente uma arte de defesa não faz nada além do que se forjar uma carapaça que ele deseja que fique cada vez mais sólida na qual ele corre o risco de se isolar e da qual talvez não seja mais capaz de sair.

Christian Tissier 7º Dan

(entrevista parte 1) | (entrevista parte 2)

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Conteúdo autorizado por Christian Tissier Shihan e Sylvette Douche Diretora Administratica da FFAAA
Créditos:
Texto: Aikido e Progresso – Janeiro de 2011
Original em Francês: Aïkido et Progrès nº 3
Tradução para o Português: Marisa ROSSETTO
Tradutora Juramentada e Intérprete de Conferência

Christian Tissier Shihan: Aikido e Progresso (entrevista em português) parte 2/3

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A priori, todas as técnicas do Aikido podem ser aplicadas a todas as formas de ataque?

A priori sim. Pois ainda que os ataques sejam bastante convencionais, e é bom que seja assim pois a forma, esta permanece, eles são também bastante variados.

Os golpes devem supostamente representar todas as direções: de cima para baixo (shomen uchi), de lado ou com as costas das mãos (yokomen uchi), de frontais (tsuki) etc. Podemos, portanto conside- rar que, no que se refere à direção, não há diferença significativa entre un yokomen bem executado e um gancho clássico.

O problema está mais no que se mostra e os aikidokas não prestam atenção suficiente na qualidade de seus ataques, os quais muitas vezes não apresentam energia suficiente e são imprecisos.

Excessivamente abertos quando os braços se levantam ou ao contrário rígidos e pouco velozes, desconectados do centro e sem nenhuma noção de impacto e de distância… a tendência é que acabe por melhorar, mas há muito trabalho pela frente.
Em relação aos ataques com os pés, o número de técnicas aplicáveis diretamente no primeiro ataque é bastante limitado. Mas numa esquiva num primeiro ataque com os pés, modificando a distância e as reações do adversário, pode causar uma captura, um golpe de mãos, ou uma proteção que podem na sequência tornar possíveis todas as aplicações.

A eficácia e a progressão qualitativa das técnicas, estão ligadas a uma busca de estética? Na verdade, existe uma oposição entre um Aikido artístico e um Aikido eficaz?

Não. Eu não penso assim, pelo menos não ligadas a uma busca de estética, pois tampouco se deve praticar um Aikido afetado. Mas o fato é que o Aikido como qualquer arte que usa o corpo como suporte tende a executar um gesto puro, despojado de todos os seus medos, contrariedades e bloqueios tanto físicos quanto psíquicos.

Em minha opinião, não há Aikido eficaz ou artístico. O Aikido, se for praticado corretamente, é eficaz e inevitavelmente belo. Se for eficaz sem ser belo, estará então sendo praticado com força e, portanto, limitado em seu poder potencial e em seu progresso. No caso, ele apenas expressa o que o que aikidoka em questão já possui mais ou menos e utiliza para se assegurar, nada  além  disso. O Aikido, estético  mas  sem  eficácia  é  apenas mímica, pareceria com a arte mas a forma é oca, vazia de seu conteúdo real, nele não há autenticidade, vida. Por isso, é fato que com a conivência de um bom parceiro, tudo vai bem, mas este Aikido não resiste a um conflito, pois o medo faz ressurgir todos os bloqueios.

Colocar seu adversário em desequilíbrio é fundamental no Aikido. E com o atemi por exemplo?

0 Sensei Morihei Ueshiba dizia que o Aikdo que ele fundara era irimi e atemi. O significado do atemi é, portanto essencial por várias razões. O atemi pode materializar uma distância, fixar o parceiro de alguma forma, pará-lo ou enfrentá-lo.

Além do golpe, é também um ponto de apoio importante. O atemi pode também ajudar a acalmar a violência do adversário, ou também, o que é melhor ainda, dosando-o com relação à ação que havíamos decidido de por em prática para imobilizá-lo com firmeza e sem dano para o adversário. O atemi pode marcar o bloqueamento de uma ação, sem que para isso seja necessário o impacto. É mais importante que o atemi feche e abra ângulos na hora certa e também na distância certa. Mas atenção, não se trata apenas de um simples gesto, é indispensável que ele seja credível, ou seja, preciso, rápido e poderoso.

O atemi deve sempre ser usado com sabedoria, não como uma reação de medo, impotência ou com agressividade porque nestes casos, não é mais um aikidoka que se expressaria, mas qualquer pessoa. Na verdade, se praticado com eficácia, o atemi deve ser a sanção potencial e radical que permite a escolha da  clemência  sem  fraqueza  durante a ação.

(entrevista parte 1) | (entrevista parte 3)

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Conteúdo autorizado por Christian Tissier Shihan e Sylvette Douche Diretora Administratica da FFAAA
Créditos:
Texto: Aikido e Progresso – Janeiro de 2011
Original em Francês: Aïkido et Progrès nº 3
Tradução para o Português: Marisa ROSSETTO
Tradutora Juramentada e Intérprete de Conferência

Christian Tissier Shihan: Aikido e Progresso (entrevista em português) parte 1/3

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Entrevista originalmente em Francês publicada na Aikido e Progresso n °03 (FFAAA) | janeiro de 2011

CHRISTIAN TISSIER  7º DAN SHIHAN

O AIKIDO bem praticado coloca incalculáveis questões…

Para que se consiga uma aplicação perfeitamente eficaz do Aikido o que seria melhor, agir primeiro e pensar depois, sem se prender à técnica, ou ao contrário?

Em minha opinião, a única aplicação eficaz do Aikido é a preservação da própria integridade, da dos outros e o sucesso nas escolhas das qualidades humanas, tanto físicas quanto espirituais, que queremos desenvolver. No entanto, a su-bstância de tal pergunta pede uma resposta bem mais concreta.

Não se pode dizer que haja realmente regras o que há na verdade são níveis de aplicação.

Aplicadas com determinação e violência, algumas técnicas (nem todas) são perigosas mesmo que o praticante não tenha ainda adquirido uma grande experiência.

Mas neste nível, pode-se realmente falar de Aikido?

Auto defesa em forma de Aikido seria provavelmente mais adequado. Pensar primeiro, agir depois? Talvez, se estivermos falando da estratégia que precede a ação. Talvez, se tivermos também tempo para considerar as possibilidades ao mesmo tempo em que do-minamos nossas emoções.

Mas quando já houver controle, a única ação realmente eficaz é a espontaneidade.

Toda a técnica de nossa arte marcial tende a desenvolver este momento, esta escolha não pensada, na qual o que já foi adquirido e somente o adquirido vai conduzi-lo como o me lhor dos guias. Nestes momentos precisos, a visão da ação é então muito clara: como em câmara lenta, o verdadeiro poder se exprime flexível e leve e entretanto terrivelmente pesado no momento crucial.

(entrevista parte 2) | (entrevista parte 3)

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Conteúdo autorizado por Christian Tissier Shihan e Sylvette Douche Diretora Administratica da FFAAA
Créditos:
Texto: Aikido e Progresso – Janeiro de 2011
Original em Francês: Aïkido et Progrès nº 3
Tradução para o Português: Marisa ROSSETTO
Tradutora Juramentada e Intérprete de Conferência